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O Ceará é expressivo exportador de castanha de
caju e lagosta, mas um de seus produtos de melhor cotação no mercado nunca
aparece na balança comercial. O Estado ficou conhecido pela boa safra de
humoristas, com exemplos notórios como Chico Anísio, Renato Aragão e Tom
Cavalcante, nomes que se destacam em qualquer lista dos maiores do país.
O celeiro atual dessa produção é Fortaleza, onde os comediantes se
multiplicam. Todas as noites, em bares, pizzarias e barracas de praia da cidade,
há shows de humor. No teatro, as peças de maior sucesso são as comédias. Uma
delas, Tita e Nic, foi vista por mais de 150.000 pessoas e bateu recorde de
permanência nos palcos da cidade, encenada durante três anos. A TV Diário, a
única com programação exclusivamente local, tem 30% da grade tomada por
humor, e os programas radiofônicos do gênero são sucessos garantidos de audiência.
A
comicidade característica da cidade tem uma explicação cultural. Cearense
genuíno tem um jeito moleque, no bom sentido, de encarar a vida, mesmo com as
dificuldades históricas da região. O humor seria a válvula de escape. Uma
forma de driblar as dificuldades, de rir da própria miséria. Essa não é uma
marca das gerações mais recentes. Um dos primeiros registros históricos da
gaiatice cearense foi o movimento literário Padaria Espiritual, de 1892. Muito
antes da Semana de Arte Moderna, os "padeiros" já produziam o Pão do
Espírito, um jornal modernista e, claro, irreverente. Outra marca histórica da
molecagem cearense é o bode Yoyô, um animal simpático e paparicado que virou
peça do Museu Histórico do Ceará. O episódio mais célebre, no entanto, foi
noticiado no jornal O Povo, em janeiro de 1942. Um grupo numeroso de pessoas
vaiou o sol quando ele interrompeu uma rara manhã de chuva na cidade.
Entre as revelações da terra, o cantor brega Falcão começou por acaso.
Escrevia canções engraçadas, que faziam sucesso entre os amigos da faculdade.
"Eu queria só fazer as músicas, mas, como nenhum intérprete topou
cantá-las,
tive de interpretar eu mesmo", ele lembra. Vários desses artistas têm uma
trajetória parecida, apresentando-se, inicialmente, em shows de humor nos bares
e pizzarias da cidade. "Comecei em barracas de praia e cheguei a tomar o
cano em uma delas, porque a proprietária achou que eu estava dublando um
disco", brinca Tom Cavalcante. Foi também nos bares da cidade que começaram
Tiririca, Rossicléia, Meirinha, Ciro Santos, Skolástica
(Foto), Paulo Diógenes,
Lailtinho Brega e Wellington Muniz. Em comum ainda eles têm o estilo. Raramente
um humorista cearense vai fazer um show comportado, metido em um terno e
contando piadas. Eles encarnam personagens populares, fazem imitações e,
principalmente, contam muitas piadas sujas.
Mesmo recheado de palavrões, esse tipo esculhambado de humor agrada em cheio,
principalmente aos turistas. O Shopping Pizza, que oferece shows todos os dias,
recebe uma média semanal de 5.000 pessoas, a maioria de outras partes do país.
"Mesmo que eles digam um ou outro palavrão ou façam brincadeiras com a
platéia, ninguém se sente agredido, porque esse é o jeito deles. O turista
tem de entrar no clima. De acordo com o meio de comunicação ou o público,
eles podem segurar um pouco a língua, mas jamais abrem mão do improviso e da
esculhambação. "Temos de empregar outros artifícios, como interpretar a
piada, usar a voz para imitar ou fazer sons engraçados, porque as crianças
gostam do nosso trabalho", diz Wellington Muniz, o Ceará do programa Pânico
e o Paulo Jalaska do programa de mesmo nome, ambos da rede Jovem Pan de rádio.
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