Trinta e seis trabalhos inscritos, dez selecionados. O IX
Festival Nordestino de Teatro, em Guaramiranga, reúne espetáculos
de todos os estados do Nordeste, à exceção do Piauí. ''Isso não
quer dizer que o teatro piauiense esteja em baixa. Pelo contrário.
Vimos peças de bom nível, dignas de estarem no festival. Acontece
que outros fatores são levados em conta, como a diversidade. A
organização acha importante ter o máximo de representatividade
regional possível'', adianta o crítico teatral Tiago Arrais, um
dos integrantes da comissão julgadora. Este ano, o próprio Ceará,
natural campeão de inscrições, só conseguiu classificar uma
única montagem - Yerma, do grupo Palmas, direção de Francinice
Campos -, entre dez inscritas. Ano passado, 20 produções cearenses
chegaram a se inscrever. Cinco passaram pela peneira.
Sintomático? ''Pelo bom nível, muitos trabalhos cearenses
inscritos poderiam ter sido selecionados, mas nenhum, além de
Yerma, apresentou originalidade o bastante para quebrar com a forte
tendência à maior representação regional possível. Podemos
dizer que esperávamos muito mais da Bahia e que o teatro de
Pernambuco demonstrou vigor, após uma recente fase de estagnação.
Aliás, em termos de qualidade, é nítida a supremacia de
Pernambuco e da Paraíba em relação aos outros estados
nordestinos. Tanto que cada um classificou dois espetáculos. Os
demais um só'', observou o jurado. Na noite de encerramento do
festival, dois brasileiros radicados em Paris prometem roubar a
cena: Artur Ribeiro e André Curti, que formam a Cia. Dos à Deux,
apresentam Aux Pieds de la Lettre (Ao Pé da Carta).
Em cena, o teatro gestual, linguagem corporal substituindo
palavras, a serviço da loucura. Ao longo de dois anos e meio, a
dupla de atores e coreógrafos conviveu de perto com o sofrimento de
doentes mentais do Instituto Psiquiátrico Marcel RiviŠre, em
Yvelines, bairro parisiense. A interação resultou no espetáculo
Aux Pieds de la Lettre, que estreou no próprio teatro da
instituição, em dezembro de 2001. Retrato onírico e poético do
desatino, onde o humor e a imaginação contribuem para a
dissolução de estereótipos. No centro da ação, alguém que
acredita salvar o mundo através de uma carta. O personagem é
vivido por André, enquanto Artur faz as vezes de máquina de
escrever. Entre os casos inspiradores, está o de um paciente que se
sentia responsável pelo nascer e pôr do sol. ''Era um drama
absurdo, mas ao mesmo tempo de uma enorme poesia'', lembra André.
Até hoje os artistas mantêm correspondência com alguns dos
pacientes.