14 de Setembro de 2002
Por César Muniz - de Guaramiranga/CE

A Cia. Dos à Deux, formada por brasileiros radicados na França, encerrará o festival este ano.

Trinta e seis trabalhos inscritos, dez selecionados. O IX Festival Nordestino de Teatro, em Guaramiranga, reúne espetáculos de todos os estados do Nordeste, à exceção do Piauí. ''Isso não quer dizer que o teatro piauiense esteja em baixa. Pelo contrário. Vimos peças de bom nível, dignas de estarem no festival. Acontece que outros fatores são levados em conta, como a diversidade. A organização acha importante ter o máximo de representatividade regional possível'', adianta o crítico teatral Tiago Arrais, um dos integrantes da comissão julgadora. Este ano, o próprio Ceará, natural campeão de inscrições, só conseguiu classificar uma única montagem - Yerma, do grupo Palmas, direção de Francinice Campos -, entre dez inscritas. Ano passado, 20 produções cearenses chegaram a se inscrever. Cinco passaram pela peneira.

Sintomático? ''Pelo bom nível, muitos trabalhos cearenses inscritos poderiam ter sido selecionados, mas nenhum, além de Yerma, apresentou originalidade o bastante para quebrar com a forte tendência à maior representação regional possível. Podemos dizer que esperávamos muito mais da Bahia e que o teatro de Pernambuco demonstrou vigor, após uma recente fase de estagnação. Aliás, em termos de qualidade, é nítida a supremacia de Pernambuco e da Paraíba em relação aos outros estados nordestinos. Tanto que cada um classificou dois espetáculos. Os demais um só'', observou o jurado. Na noite de encerramento do festival, dois brasileiros radicados em Paris prometem roubar a cena: Artur Ribeiro e André Curti, que formam a Cia. Dos à Deux, apresentam Aux Pieds de la Lettre (Ao Pé da Carta).

Em cena, o teatro gestual, linguagem corporal substituindo palavras, a serviço da loucura. Ao longo de dois anos e meio, a dupla de atores e coreógrafos conviveu de perto com o sofrimento de doentes mentais do Instituto Psiquiátrico Marcel RiviŠre, em Yvelines, bairro parisiense. A interação resultou no espetáculo Aux Pieds de la Lettre, que estreou no próprio teatro da instituição, em dezembro de 2001. Retrato onírico e poético do desatino, onde o humor e a imaginação contribuem para a dissolução de estereótipos. No centro da ação, alguém que acredita salvar o mundo através de uma carta. O personagem é vivido por André, enquanto Artur faz as vezes de máquina de escrever. Entre os casos inspiradores, está o de um paciente que se sentia responsável pelo nascer e pôr do sol. ''Era um drama absurdo, mas ao mesmo tempo de uma enorme poesia'', lembra André. Até hoje os artistas mantêm correspondência com alguns dos pacientes.

 
 

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