|
O último debate na televisão entre o
tucano José Serra e a prefeita Marta Suplicy (PT), que tenta a reeleição
em São Paulo, foi centrado em discussões temáticas e no confronto de
propostas. Ambos evitaram os ataques pessoais e apostaram nas bandeiras
das respectivas campanhas, já exploradas no horário eleitoral gratuito
da televisão.
Marta empenhou-se em mostrar sua face "realizadora", argumentar
que o adversário não tinha propostas, e que ele pode não continuar
alguns projetos implementados em sua administração.
Na defensiva, Serra listou falhas na gestão do PT e tentou transmitir a
imagem de serenidade. Ao terminar uma fala, Serra disparou: "Torço
para que sua prefeitura termine bem".
Do outro lado, Marta, esforçando-se em passar a imagem de realizadora,
afirmou: "Não sou uma pessoa que fica criticando, sou uma pessoa da
solução".
O debate pode ser decisivo para a eleição: o tucano tem 49% das intenções
de voto, sete pontos à frente de Marta, segundo o Datafolha
Ao contrário das versões anteriores, o formato do confronto desta noite,
promovido pela Rede Globo, seguiu os moldes do debate presidencial de
2002, com os candidatos em pé no meio de uma arena, movimentando-se
livremente e respondendo perguntas de uma platéia composta por 39 pessoas
escolhidas pelo Ibope, sem vinculação partidária.
O bloco inicial do debate foi "morno" e direcionado às questões
sociais. Respondendo às perguntas da platéia, Marta e Serra falaram de ações
para educação, saúde, políticas para combater a desigualdade social e
habitação.
Confronto
O derradeiro embate verbal entre a petista e o tucano, entretanto,
esquentou a partir do segundo bloco, que permitia perguntas diretas
formuladas de candidato para candidato.
Marta questionou Serra sobre propostas para o transportes. Na formulação
da pergunta, a petista o questionou sobre "sua proposta concreta para
o setor". Serra respondeu, "com todo respeito Marta, mas a CET
[Companhia de Engenharia e Tráfego] está sucateada".
A petista ainda rebateu: "Eu pergunto de solução e você fala de
problema". Serra fechou o tópico usando uma declaração da adversária:
"Não é seu o dinheiro, você não é dona do dinheiro, o dinheiro
é da prefeitura".
Na seqüência, os candidatos travaram duelo verbal sobre um dos temas
mais recorrentes da campanha, a saúde. Serra questionou Marta "por
que ela não fez nenhum leito novo na gestão". Marta repetiu seu
discurso, disse que "fez muito, mas ainda não está
satisfeita". "Milagre não tem como fazer. Não sou Deus",
disse ela.
Marta citou ainda seu projeto das policlínicas, reclamou da "herança"
do PAS [Plano de Atendimento à Saúde] das gestões Celso Pitta e Paulo
Maluf e disse que "não seria louca de prometer uma coisa que não
sou capaz de fazer". Serra respondeu: "Não é por causa do PAS
que não há remédios nos postos de saúde".
Truque
Marta e Serra acusaram-se de usarem "truques" (artimanha, tramóia)
para confundir o eleitor. O primeiro a usar a expressão foi o tucano, ao
responder uma pergunta da adversária sobre a continuidade dos CEUs
(Centro Educacional Unificado) na cidade. Serra disse que cumpriria, se
eleito, o previsto no orçamento, mas "sem truques, porque o orçamento
tem truques".
Em outra ocasião, foi a vez de Marta usar o discurso, ao comentar o
processo para abertura de uma empresa em São Paulo. Disse que a
burocracia partia do Estado, diante da necessidade do aval da Cetesb e do
Corpo de Bombeiros. "Isso é truque, você pega os números, embaraça
e mostra", afirmou ela.
Federalização
Marta, mais de uma vez, reclamou da falta de recursos do governo federal
na gestão Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Disse que antes não
tinha atenção, mas agora tem um parceiro no governo federal.
No terceiro bloco, ao se referir ao presidente Lula, Serra disse que o
petista "copiou a política econômica de Fernando Henrique e que
antes diziam que ele era um Belzebu". "Cadê os empregos que ele
prometeu? Ninguém sabe, ninguém viu."
Discurso final
O molde do debate proporcionou aos dois candidatos espaço para cada um
fazer um pronunciamento final, sem interrupção do adversário. O
discurso final de Marta foi emocionado. O de Serra, na linha "família".
A petista repetiu a fala empregada na última propaganda eleitoral
gratuita, a qual pediu ao eleitor "que vote com sentimento de justiça".
"Domingo vocês vão julgar três anos e meio do meu trabalho. Peço
sentimento de justiça, o mais nobre dos sentimentos."
Ela disse também ter sido vítima de "maldade dos adversários e de
preconceito". Na seqüência, rebateu as críticas sobre sua
personalidade. "Tanto falam que sou arrogante, e isso tem a ver com
episódios, mas tem a ver porque sou mulher. Se eu fosse boazinha para
tratar a máfia dos transportes..."
Disse ainda que "quando eu erro peço desculpas" e referiu-se ao
mediador do debate, o jornalista Chico Pinheiro, o qual teve uma discussão.
Terminou afirmando que "se eu mereço ser 'Martaxa', também mereço
ser Marta do CEU, do bilhete único, Marta do Passa Rápido, e Marta do
povo pobre de São Paulo".
Serra falou de sua infância, no bairro da Móoca (zona leste), e
agradeceu aos filhos e aos "netinhos", segundo ele, "um
ponto de descanso nessa campanha".
Disse que chega à disputa depois de uma longa jornada na vida pública,
que cresceu junto com São Paulo, pretende trabalhar com respeito e
melhorar o funcionamento dos serviços da cidade.
|